E então, os 23…

E lá se vão 23 anos. Tá, ainda não nasci. No mesmo horário em que agora escrevo, mas há 23 anos, minha mãe possivelmente estava tendo um aumento nas contrações. Nascer mesmo só fui as 11:30. Horário estranho de se nascer. Mas pelo menos anunciou que normal eu não eu seria. Horário estranho, pessoa estranha. Será que estava frio? Sei que era outono. Sei também que não nasci de parto normal. Minha mãe optou pela cesariana pois decidiu que eu seria o último filho. O caçula de mais duas irmãs.

E hoje comemoro mais um ano. E daí? Ao se fazer uma análise fria percebo que nesse tempo todo não realizei absolutamente nada de grande. Nem para a humanidade, muito menos para mim. Ainda nem sequer formei! E olha que já era pra estar, no mínimo, procurando emprego. Mesmo que de professor de primário.

Continuo parado. Ainda estou nessa universidade que não dá a mínima pros cursos de Humanas. Ainda estou num curso que prega o tecnicismo e por vezes mais parece um mero curso técnico de informática ou um pastiche tacanho de um curso de Design. Num curso em que quase metade do seu quadro de professores ou é fraco ou é picareta, que sistematicamente defeca uma ética que não pratica com seus alunos  (isso porque ainda nem conheci todos os “mestres”). Num curso sem estrutura, sem equipamentos, criado “nas coxas” para angariar mais verbas. Num curso que se gaba de ganhar premiozinhos em concursos fracos, escusos, que nada acrescentam, exceto um orgulho clandestino para alguns docentes e discentes. Num curso que, parafraseando um professor de outro departamento “pega os melhores alunos e devolve os piores profissionais”. Formar para analisar redes sociais? Formar para pagar pau para famosos que nem sabem da sua existência? Parabéns a quem faz, que sejam felizes. Isso é apenas uma opinião pessoal de um blog pessoal: isso eu não quero para minha vida. E o pior: tem gente muito boa nesse curso. Mas insistem em nivelar por baixo.

Desde 2009 a única coisa de diferente que fiz foi estagiar remuneradamente. Coisa que ainda só havia feito de modo voluntário. Confesso que aprender não aprendi muita coisa. Não na parte técnica. Aprendi no trato interpessoal, no treinamento da paciência. Meus chefes diretos foram fantásticos. E não reclamo do dinheiro. Era pouco, abaixo do estabelecido segundo as novas regras (mas quem as segue nessa nação bananesca?) mas isso sempre foi o de menos. Dinheiro se ganha, se perde, se ganha de novo e assim a vida segue. Confesso, no entanto, que foi um grande alívio sair do estágio. Parecia até que eu estava prevendo o que viria a acontecer. Mas como não mais lá estou, desejo sorte e paciência aos que agora se aventuram.

Voltando ao cerne, continuo nessa cidade. Sim, ela é a MINHA cidade, nasci aqui. E com pesar pude perceber o quanto ela se deteriorou nesses 23 anos. Saiu a beleza, entrou a sujeira. Os habitantes interessantes morreram ou não tem mais as mesmas condições de nos ensinar. Para ocupar esse “vaga”, Viçosa foi tomada por uma massa amorfa de seres que não conseguem pensar sozinhos. Agem como zumbis procurando a próxima diversão, qualquer que ela seja “desde que tenha cerveja e mulher/homem bonito pra eu pegar”.

Continuo nessa cidade que nada oferece de diferente. E o mais estranho é que quase ninguém se preocupa com isso! Parecem até habitantes da Matrix. Vivem sua vidinha sem se preocupar se ela é medíocre ou não. E em NADA, NADA colaboram pelo avanço: chegam, sugam, dão uma banana e vão embora xingando. Tirar o rabo da cadeira para ajudar, nunca. Exceto quando recebem um pequeno revés, como a estipulação de horário de funcionamento de bares e festas ou em questões “políticas” e policiais como uso de drogas ou os ditos “direitosdoscidadãos”.

Sim, isso é um desabafo dos grandes. Não que eu ache que hoje, por ser “meu dia”, eu posso tudo. Pelo contrário. Quem me conhece sabe muito bem que conheço todos os limites sociais e morais que a vida nos impõe. E aceito, sem “mimimi” brasileiro porque isso é um saco. Claro, sei que serei julgado por isso, dedo em riste apontado pra mim. Mas enquanto esse país não optar pela “revolución” ainda posso dizer o que eu sinto. Só não me cobrem fazer média. Os cerebrados entenderão que não estou colocando tudo e todos no mesmo balaio. Não vou explicar nada além daquilo que deva ser explicado.

“Então ‘ow, ow, ow, nada mudou‘, Eduardo?” “Você é um frustrado apenas?”. Sim, sou e reconheço. Tenho o caráter de reconhecer todos (ou pelo menos a maioria) meus erros, acertos e, principalmente, quem eu sou (e como isso tá raro hoje em dia, não?). Sim. Pode parecer mentira, mas não é. Desde 2009, quando optei por uma religião e passei a levá-la a sério, estudando-a e lendo coisas além dela própria justamente para que não fique num fanatismo rasteiro, eu venho numa constante mudança.

De “leão ferido que morde quando alguém se oferece para tratar o machucado”, como disse minha irmã (e disso nunca esqueci) para uma pessoa muito mais centrada. Menos ofensiva, menos julgadora. Por vezes, um completo panaca sempre a espera de algo, paciente, mãozinhas juntas e pés balançando ansiosamente. Não, ansioso não mais. Ainda há um resquício, mas a cada dia diminui, graças a D’us.

Sei que o início do post parece provar que neste momento estou mentindo. O que acontece é que tirei este dia, que pra mim significa muito (sim, eu sou uma besta que dá muito valor a aniversários), para colocar pra fora, desabafar. Internalizar as coisas já me fez muito mal. E como não estou citando o nome de ninguém, acredito que não esteja cometendo nenhuma injustiça. Caso esteja (afinal, apesar das mudanças, estou longe, muito, muito, muito, muito longe da perfeição), peço, com a humildade adquirida em Hod, desculpas.

Mas nem tudo é reclamação nesse 23 anos.

Em questão de família, sou um abençoado. Tenho pais maravilhosos, uma mãe que me apoia, me puxa a orelha e me manda levantar sempre que caio. Irmãos angelicais, que estão sempre do meu lado. Sobrinhos, primos, tios e tias que, perto ou longe, sei que me amam da forma como sou.

E os amigos? Mesmo que sejam poucos (e é até bom que sejam) são de verdade. Os antigos, adquiridos na infância, os novos, adquiridos nas duas graduações… Posso considerar todos como irmãos. E aqui me reservo o direito de não citá-los nominalmente exatamente para que nenhum injustiça ou esquecimento sejam cometidos (e todos sabem quem são). E aos próximos que o futuro reserva. Tenho certeza que toda a mudança que empreendi em mim mesmo resultará em companheiros que não me julgarão precipitadamente e me ajudarão a aprimorar ainda mais o que sou.

E não posso esquecer daqueles que já passaram por minha vida. Sejam aqueles que, infelizmente, morreram (é a ordem natural das coisas. A vida de verdade é lá, não aqui) ou aqueles que tiveram presença física, de certa forma, efêmera. Essas regras vem de outro plano e são naturais, logo, não há jeito de contrariá-las. Além, é claro, de serem necessárias à nossa evolução. A todos esses, muito obrigado. Extraí aquilo de melhor que vocês tinham a me oferecer.

Se fossem outros tempos eu nem citaria os que não gostam de mim.  A esses também devo aprendizado. Sim. Aprendi o autocontrole, a não demandar coisas, a controlar a raiva e, principalmente, a não sentir pena. Quem sabe um dia me conheçam melhor… Mas é melhor ignorar (não no sentido de desprezo) do que enraivecer, certo?

E por último, mas não menos importante, agradeço a todos meus guias espirituais. E aqui me dou o direito de nomeá-los, mesmo que esqueça alguns (é que eles não ficam ressentidos com falhas nossas): Minha mãe de santo, Anunciação, Pai Venâncio, Pai Joaquim, Pai João, Caboclo Treme-Terra, Caboclo Pena Branca, Caboclo Coral, Caboclo da Lua, Caboclo Estrela Azul, Cabocla Jurema, Exu Marabô, Exu Arranca-Toco, Exu Pedra Preta, Exu Seta Labaredas, Exu Veludo, Exu Sete Capas, Bombonjira Maria Padilha, Bombonjira Catarina, Bombonjira Sete Saias, a todas as crianças de Aruanda e Angola, a todos os baianos, boiadeiros, médicos do espaço, guias elevados, Orixás, Oxalá e D’us, nossa Mãe Natureza.

Já já estarei nascendo. Ou melhor, renascendo. Após o vômito, a mudança continua. E a maior prova de que ela é verdadeira é que guardo minha essência e ainda sei quem sou. Não sinto mal nenhum em ser o que sou agora. E aguardo para que o equilíbrio entre o “bravinho, sarcástico, ácido, amargurado, solitário, chato, babaca” e o “centrado, leve, não julgador, coerente, justo” aconteça de fato e para sempre.

A todos, muito obrigado! E mais uma vez, peço desculpas. Espero que não seja encarado como julgamento o que fiz. Apenas desabafei neste dia que alguns (e eu mesmo) chamo de meu, mas é também de pessoas como Malcolm McDowell, William Butler Yeats e do grande Fernando Pessoa, que nasceu exatos 100 anos antes de mim e tem sido um dos meus condutores através de suas palavras.

Para terminar, uma musiquinha que resume tudo:

5 respostas para E então, os 23…

  1. Naquela manhã de sol, muito fria, mas com um lindo céu azul de outono (como vc e eu tanto amamos), vc regressava para mais uma experiência terrena. Chegou depois de várias “tentativas frustadas” (o médico sempre mandava mãe de volta pra casa, “não era a hora”), chegou matando nossa ansiedade (sim, porque vc foi muito querido, esperado e desejado por todos nós, afinal foi o único “programado”), chegou já botando os bofes para fora, reclamando, ” do contra” (como sempre? acho que não mais), o único bebê da maternidade a chorar escandalosamente… E assim permanceu por mais 3 anos consecutivos, o menino que chorou 3 anos seguidos e um belo dia, parou de chorar! O meninho que brincava com a máscara de Batman e jaqueta de nylon, mesmo num calor sub-saariano… o único menino que ficava bonitinho chupando chupeta e eu ia lá retira-la da sua boca, só para ver vc fazer biquinho… o menino inteligente desde sempre, com a letrinha miudinha… o menino que dormia comigo e que eu abraçava forte para me esquentar, depois de ficar até tarde vendo Jô… o adolescente sensível, observador e inquieto, já lendo, ouvindo, vendo o que iria moldar o adulto de agora… Sim, vc é difícil sim, é duro muitas vezes, mas está encontrando o caminho “do meio”, do equilíbrio, da tranquilidade… E se ainda vc ainda não “realizou nada” é apenas pq 23 anos é só o começo da vida “adulta”. Vc está construindo, está no caminho. E eu particularmente acredito que a “missão” da nossa vida é construir “alguém” melhor e não “algo” melhor. E isso, vc está fazendo muito bem, especialmente nos últimos meses. Fico feliz de vc estar “de volta”, depois do mergulho nas suas “águas profundas” (eu, de fora, vejo assim). Obrigado por respeitar minhas decisões, minha opinião (a do leão tinha um contexto, não se aplica mais, pode esquecer), ser um estímulo de aprendizagem e auto-conhecimento, além do meu “personal-knowledgeabouteverything”. E isso, sem pagação de pau, de verdade e de coração! Beijo! Amo-te.

  2. Cara, como você pode falar que nunca realizou nada se nos conseguimos fechar Super Mário World mais de uma vez??? Tá ficando doido? Isso não é pra qualquer um!!!

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